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domingo, 3 de junho de 2018

O Gigante Enterrado

3.



Se você visse a aldeia saxã à distância e a certa altura, ela teria lhe parecido mais familiar como “aldeia” do que o abrigo de Axl e Beatrice. Por uma razão: não havia nenhuma escavação colina adentro, talvez porque os saxões tivessem um senso mais aguçado de claustrofobia. Se estivesse descendo a encosta íngreme do vale, como Axl e Beatrice estavam fazendo naquele fim de tarde, você veria lá embaixo cerca de quarenta casas independentes, dispostas no fundo do vale em dois círculos irregulares, um dentro do outro. Talvez estivesse longe demais para notar as variações de tamanho e de luxo entre elas, mas teria visto os telhados de colmo e percebido que muitas delas eram casas redondas não muito diferentes do tipo de casa em que alguns de vocês, ou talvez seus pais, cresceram. E se sacrificavam de bom grado um pouco de segurança em troca dos benefícios do ar livre, os saxões tinham o cuidado de compensar isso: uma cerca alta, feita de mastros de madeira amarrados uns aos outros e pontiagudos como lápis gigantes, circundava a aldeia inteira. Em qualquer ponto, a cerca tinha pelo menos o dobro da altura de um homem e, para tornar a ideia de escalá-la ainda menos tentadora, um fosso profundo acompanhava todo o contorno da cerca pelo lado de fora.


Essa seria a imagem que Axl e Beatrice veriam logo abaixo quando pararam para recuperar o fôlego, enquanto desciam a encosta. O sol agora estava se pondo sobre o vale, e Beatrice, que enxergava melhor, estava mais uma vez se inclinando para a frente, um ou dois passos adiante de Axl, o capim e os dentes-de-leão ao seu redor batendo em sua cintura.


“Eu estou vendo quatro, não, cinco homens guardando o portão”, ela disse. “E acho que eles estão armados com lanças. Quando estive aqui pela última vez com as mulheres, era só um guarda com um par de cães.”

PRIMEIRA LIÇÃO

A MAIS BELA DAS TEORIAS


Quando jovem, Albert Einstein passou um ano viajando. Quem não perde tempo não chega a lugar nenhum, coisa que, infelizmente, os pais dos adolescentes esquecem com frequência. Ele estava na cidade italiana de Pavia. Tinha ido ao encontro da família após abandonar os estudos na Alemanha, onde não suportava o rigor do liceu. Era o final do século XIX e, na Itália, o início da revolução industrial. O pai, engenheiro, instalava as primeiras centrais elétricas na planície do rio Pó. Albert lia Kant e, informalmente, assistia a aulas na Universidade de Pavia: como passatempo, sem estar matriculado nem fazer exames. É assim que se desenvolve um verdadeiro espírito de investigação.

Depois, se inscreveu na Universidade de Zurique e mergulhou na física. Poucos anos mais tarde, em 1905, enviou três artigos à principal revista científica da época, Annalen der Physik. Cada um dos três valia um Prêmio Nobel. O primeiro mostrava que os átomos existem de fato. O segundo abria a porta à mecânica quântica, da qual falarei na próxima lição. O terceiro apresentava sua primeira Teoria da Relatividade (hoje chamada “relatividade restrita”), a teoria que esclarece como o tempo não passa do mesmo jeito para todos: dois gêmeos que se reencontram constatam ter idades diferentes, se um dos dois tiver viajado velozmente.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

O Gigante Enterrado



PARTE I

1.




Você teria que procurar muito tempo para encontrar algo parecido com as veredas sinuosas ou os prados tranquilos pelos quais a Inglaterra mais tarde se tornaria célebre. Em vez disso, o que havia eram quilômetros de terra desolada e inculta; por todo lado, trilhas toscas que atravessavam colinas escarpadas ou charnecas áridas. A maior parte das estradas deixadas pelos romanos já teria àquela altura se fragmentado ou ficado coberta de vegetação, muitas delas desaparecendo em meio ao mato. Uma névoa gelada pairava sobre rios e pântanos, muito útil aos ogros que ainda eram nativos daquela terra. As pessoas que moravam ali perto — e pode-se imaginar o grau de desespero que as teria levado a se estabelecer num lugar tão soturno — teriam razão de sobra para temer essas criaturas, cuja respiração ofegante se fazia ouvir muito antes de seus corpos deformados emergirem da neblina. Mas esses monstros não causavam espanto. As pessoas da época os teriam encarado como perigos cotidianos, e naquele tempo havia uma infinidade de outras coisas com que se preocupar: como obter alimentos do solo duro; como não deixar que a lenha acabasse; como curar a doença que podia matar uma dúzia de porcos num único dia e provocar brotoejas esverdeadas nas bochechas das crianças.


2.

Havia, no entanto, muitas coisas para providenciar antes que eles pudessem partir. Numa aldeia como aquela, muitos dos itens necessários para a viagem — como cobertas, cantis, acendalhas — pertenciam à coletividade e, para garantir seu uso, era preciso negociar muito com os vizinhos. Além disso, Axl e Beatrice, mesmo sendo idosos, tinham sua carga de tarefas diárias e não podiam simplesmente ir embora sem o consentimento da comunidade. E, quando enfim estavam prontos para partir, uma mudança no tempo os atrasou ainda mais. Pois que sentido faria arriscar-se a enfrentar perigos como a neblina, a chuva e o frio se o sol com certeza logo reapareceria?
Um dia, porém, eles finalmente partiram, de cajado na mão e trouxa às costas, numa manhã de céu claro, riscado de nuvens brancas, e brisa forte. Axl queria partir à primeira luz da manhã, pois não tinha dúvida de que o dia seria bonito, mas Beatrice fez questão de esperar que o sol subisse um pouco mais. A distância até a aldeia saxã onde eles pretendiam passar a primeira noite, ela argumentou, podia ser galgada facilmente com um dia de caminhada, e sem dúvida a prioridade deles era atravessar o canto da Grande Planície o mais perto possível do meio-dia, quando era mais provável que as forças sombrias daquele lugar estivessem adormecidas.